guardava roubado nos bolsos 

o ínfimo pormenor do cotão 

e um quilo de imaginação


não era vagabundo

embora no mundo

fosse conhecido pela

marginalidade que lhe sobejava

aos olhos dos mais atentos


chamavam-lhe poeta

àquela hora certa a que nunca estava


acaso estivesse trocava por um copo de três

um poema que dizia sempre ser de

um amigo recém desaparecido.

E que lhe enchessem o copo para

afastar a mágoa


guardava nos bolsos

um quilo de sonho até

que adormecia


e se acordava,

invariavelmente trazia os bolsos

rotos de vagabundo

e uma memória de cotão


nuno travanca



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