[a pandemia]

as nêsperas frutos de esperança
na madrugada
pendendo vagarosos
da árvore mãe
barcos iluminados
presos a um cais de medo
do outro lado navegam
as chamas da cidade
perdidas entre árvores de sombra
o quarto está apagado na fotografia
esta noite não sonhei
que tenho medo de andar na rua
e encontrar olhares
que atravessam o meu
por sobre as máscaras
a janela está aberta
sobre a primavera
de dois mil e vinte e um
aberta sobre o enigma do vírus
nos degraus da cidade
e o fogo
que se acende na noite
não é suficiente
para aquietar os demónios
enquanto as nêsperas esperam
e constroem pacientemente
o seu mel
aguardando o dia
em que aos humanos
seja permitido imitar o melro
de bico amarelo
e não resistir à tentação
de ir colhe-las
e sugá-las

José Manuel Barroso

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