Mulheres do peixe
as mulheres do peixe gravitavam
diminuídas em seu dadivoso fulgor
pela estreiteza da terra
viviam em estado de maré
a boca do corpo descaída
pela contínua expansão da prenhez
as mãos escamosas de segredos
a rede dos cabelos em desfraldada oferenda
os olhos como faróis puxando os seus para terra
resgatando-os dos beiços da tempestade
tudo semelhando um silêncio de aprendizagem
e desafio
as mulheres do peixe possuíam a idade dos seus gestos
os seus corpos distinguiam a vida de pertences
e renovadas variações
poder-se-ia afiançar com certeza
que o mar num excesso de generosidade
tinha ofertado à terra o seu mais precioso plâncton
guardando-se de silêncios e profusão de peixes
para os rebentos da solidão de tais seres
a preia-mar do seu grito encolhia a hipótese do roubo
atraía fregueses vendia o peixe
soltando um velame cadenciado de métricas
como se da vida restasse somente a estação das
seduções
em tardes de muita luz
sentavam-se a apartar a bicheza do cabelo dos filhos
e depois
mais apuradas do poder da separação
consertavam os estragos das redes em devotada oração
já deitadas
buscavam pelos sinais do corpo dos seus homens
as últimas vontades do mar
João Rios
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