[viagens]
veterano das barcas das Índias
festejo antigas navegações
viajo com a pedra filosofal
no bolso e os olhos verdes
da Elisabete Taylor
em meu rosto
de garimpeiro de sonhos
curtido pelo sal
dos mares que não conheço
vi a ponte romana de Mosul
sobre o mar Pérsico
e o planeta Marte
ametista brilhando
por cima do seu arco breve.
chovia muito em Bagdad
um homem segurava a árvore
os dois braços em volta
para que a tempestade
não derrubasse
os topázios da ramagem
e impedisse a torrente
de ganhar o sul.
em Bafatá não chovia
sobre o Atlântico oriental
era a estação seca
mar de paciência da terra
uma mulher preparava o almoço
batendo mancarra no pilão
os quadris se agitando
se agitando e agitando
vagas na carne do cio.
as deusas decepadas do Partenon
continuavam eternamente sentadas
à minha espera
olhando o mar de Ulisses
(ou à espera de outros guerreiros
nunca o saberei)
uma aconchega ainda
o seu pé direito com volúpia.
numa noite sem lua
deitei fogo ao deus sol
e sarei as feridas
do remorso
nos gelos do ártico.
quando colocou a pedra filosofal
no meu bolso
meu avô disse-me
’não matarás ninguém
em teus sonhos
exceto a ti próprio’
eu reclinei devagar
a cabeça no seu colo
e adormeci de novo
no embalo do mar das pérolas
José Manuel Barroso
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