VOZES DE SÂNDALO

 

É como se tudo

continuasse, apesar

de nunca ter

acontecido. O

soalho

irrepreensivelmente

encerado, a saia

pelo joelho, e o

fumo do cigarro que

se escapava por

entre os lábios. Há

sombras que deixam

o seu vínculo na

tempestade da pele,

há tantas formas de

dizer que não,

demasiadas,

escassas. O espelho

disposto num modo

oblíquo para que a

presença se

assemelhasse ao

desespero escrito. À

figura que o vento

dissipa, a figura

incontornável,

imersa num acto

contrito de dor. Uma

pausa e tudo segue

como um rio o seu

curso. O desejo

acalentado por um

fio de pólvora. O

motivo para o

relampejar de um

instante. A face

híbrida, luminosa,

contudo. O cigarro

há já instantes

extinto. Este quarto

situa-se no

hemisfério norte de

uma estrela menor,

no lóbulo da orelha

esquerda, quase na

iminência de ser rio.

Águas furtadas no

temperamento da

solidão. Águas que

rebentam em

ausência... o mar

continua e a voz em

sândalo de um areal

desolado são a única

presença que ousa

ainda estremecer o

voo. A dilatação no

peito de náufrago. A

solidez de uma

cratera robusta

enunciada por uma

palavra. O vazio e o

mar que se dispõe.

São danos preciosos,

quedas na

dessemelhança

entre ser e estar.

Também eu vogo e

sinto a assimetria.

Estar só afigura-se

tanto a este texto.

 

Leonora Rosado


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